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ATRAVÉS DO ESPELHO...
Avanço no limiar deste dia, lançando fora algumas amarras…
Do cobertor pesado, às roupas pesadas, e círculo lépido pelo quarto, corredor e sala…
A noite fora fria, de uma escuridão espessa…
Dentro de mim, mil serpentes e mil fantasmas!
De repente eu me vi desnudo e em pelo, com a alma quase à mostra, assustada!
Andei por outras terras, em outros olhos, em outro coração, com diferente noção de espaço e de tempo…
Aqueles olhos estrangeiros tomaram por meta os meus passos iniciais, de escrita e de fala, e salteando nacos de tempo, foi se achegando ao que escrevo e sinto agora.
Como se o que escrevo fosse dar conta de mim mesmo, quando o que escrevo é apenas aquilo que me encanta, aquilo que me espanta, aquilo que me faz calar…
Eu que andei a esmo por tanto tempo, tenho agora âncora lançada, e firme no meu porto, vislumbro o horizonte, onde o céu é da mesma cor do oceano, onde a minha percepção me escapa…
Parado que estou, entre o que fui e sou, estou frente a frente com um espelho.
De repente a minha figura não é como eu me lembrava…
Onde os cabelos?
Os dentes brancos?
Alguma carne nos braços?
E aquele brilho nos olhos?
Foram-se todos, estes atributos, com o tempo!
O que me move nestes instantes de fuga das amarras, é que durante a noite dormiu comigo as lembranças da fala de um amigo distante…
Não apontaram em mim, erros graves, nem me exaltaram as suas palavras; antes conversando comigo, proporcionou a mim instantes de fala e outros de silêncios, em dado momento cobraram-me mais atenção, e se ressentiram de uma companhia mais presente…
Na noite, a pouco finda, e memória tornada, um tanto insone, por  mil serpentes e mil fantasmas, como já disse, habitada, a presença amiga, daquele amigo distante, estendeu-me as mãos, e para o meu apoio os braços…
Lembro que caminhamos pari passo por meus caminhos já trilhados, lembro que estivemos juntos no tempo em que duraram os pensamentos um do outro…
E estes elos de amizade, elucidaram o mistério de minhas correntes…
As do pescoço, as dos tornozelos!
Não há bem ou mal, no passado...
Neste instante em que desnudo, tenho a mim mesmo diante do espelho, à pergunta que eu próprio me fiz respondo… - Apenas responsabilidades!
Assim, sou agora responsável pela liberdade que antevejo diante dos olhos…
Como serei responsável ao escolher entre lágrimas nos olhos, e sorrisos largos na face!
De repente tudo me salta fresco e puro… Instantes mágicos…
Onde eu estive este tempo todo?
Que só agora dou conta de mim, mais positivamente e mais grato!
Estava no deserto de silêncios entre as gentes que passam… E porque passam não olham fundo para os olhos da gente…
Estava no deserto cheio de miragens, daquelas que dizem o que deveríamos ser, em detrimento do que trazemos dentro de nós!
Estava numa seara, onde bebia e comia sem degustar o que comia, sem realmente beber o que me descia garganta abaixo…
Estranhamente, sinto, tocando com as pontas dos meus próprios dedos, a minha própria face, que o que sempre desejei foi ser tocado, e tocar em troca… Era ser acariciado, e acariciar em troca…
Era falar, e ser ouvido…
E ouvir com alegria e contentamento!
A minha atenção foi direcionada, pelo meu amigo distante, para mim mesmo, assim mesmo, aqui tão perto, e tão negligenciado…
Deve ser coisa de língua, de código!
Não se pode olhar a si mesmo, ou a outros se não houverem pistas…
-Embora indícios de tudo já coexistam no vácuo!
Talvez seja este o mistério dentro da amizade: Captar do nada a essência do outro!
Nem tenciono magoar-me com o tempo, por ter levado tanto tempo para encontrar-me comigo mesmo, e arrazoar que não há bem, nem mal no passado…
E que apenas são um amontoado de coisas que não podem ser mudadas!
Que bom que a amizade, mesmo distante, trouxe estes sentimentos à minha alma até então atormentada…
Eu devia ter lido melhor, com mais atenção Alice através do espelho…
Se eu mudasse as minhas bases, não seria mais este que assim pensa, e assim sente!
Assim mesmo, desnudo, diante do espelho, com as meninas dos olhos, marejados, mas focadas em destinos mais a frente!
Enfim devo ter chegado, mais perto, para além da linha do horizonte, para além do Bojador!
-Quem sabe da boca de meu amigo distante, e não imaginário, cuja luz dos olhos propiciou a mim ver melhor as minhas próprias correntes, eu ouvirei:
-Vai segue em frente, é Assim Mesmo que se escreve uma história, buscando nos mesmos velhos signos novos significados!
Tiro as pontas de meus dedos do espelho e vou ao banho… A natural fluidez em suas águas dá sinal de movimento…
Eu entendo, agora eu entendo; em tempo algum, nada será sempre o mesmo!

Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.com.br
01/08/2021
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 12/05/2026
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